Blog de Tecnologia - por James Della Valle

19/02/2008 17:37

O cemitério do vídeo doméstico

O HD-DVD não é a única vítima na eterna guerra entre as empresas de eletrônicos de consumo por um lugar na sala de estar de milhares de espectadores mundo afora. Muito antes sequer da chegada das fitas VHS ao mercado a briga por um lugar ao sol, ou no rack, já era feia, e os principais formatos, quem diria, também eram discos de vídeo.

Um dos primeiros a aparecer no mercado foi o DiscoVision, desenvolvido por uma empresa norte-americana chamada MCA. Os discos usavam uma tecnologia extremamente inovadora e eram lidos com um sistema a laser. Os primeiros aparelhos, produzidos pela Magnavox, chegaram ao mercado nos EUA em 15 de Dezembro de 1978, quando 25 unidadades do "Magnavox Magnavision VH-8000" e cerca de 50 títulos entraram à venda em três lojas de Atlanta, e se esgotaram pouco depois. Na época, o player custava US$ 749, o equivalente a mais de US$ 2.500 nos dias de hoje.

Infelizmente, dificuldades de produção dos players, com inúmeros relatos de falhas de hardware e incompatibilidade, e dos discos, com relatos de metades "descolando" e manchas na superfície ótica, mancharam a reputação do sistema, cuja popularidade foi menor do que o esperado. A DiscoVision associates, que controlava o formato, fechou as portas em 1981. Depois do fechamento uma das parceiras da MCA no projeto, a japonesa Pioneer, assumiu as rédeas, e transformou o DiscoVision no que mais tarde ficou conhecido como LaserDisc.

Logo em seguida surgiu o SelectaVision, da RCA, baseado em uma tecnologia chamada CED (Capacitance Electronic Disc), derivada dos LPs de vinil. Os discos eram armazenados em estojos plásticos (caddies) e nunca eram manuseados diretamente pelo usuário. Para assistir um filme, bastava inserir o estojo inteiro em uma abertura no player: um sistema motorizado extraía o disco e devolvia o estojo vazio. Ao terminar de assistir, era só colocar o estojo vazio no player, que devolvia o disco.


Um disco CED fora do estojo. Fonte: Total Rewind



Os primeiros players, produzidos por quatro fabricantes (RCA, Hitachi, Sanyo e Toshiba) e comercializados sob 11 marcas diferentes, chegaram ao mercado em 1981. Entretanto, três anos após o lançamento as vendas ainda não tinham atingido o volume esperado, e a RCA decidiu descontinuar o formato em Abril de 1984. No total, foram produzidos 750 mil aparelhos, com 1.700 filmes lançados.

Andando mais alguns anos... temos a primeira "grande guerra", VHS (da JVC) vs. Betamax (da Sony). O principal ponto de atrito era o tempo de gravação: inicialmente duas horas em uma fita Beta, quatro horas em um gravador VHS desenvolvido pela Matsushita (Panasonic) para a RCA. A tão falada diferença entre os formatos na qualidade de imagem era mínima. Mas o consumidor queria tempo de gravação e isso, combinado ao maior número de fabricantes apoiando o VHS, alavancou as vendas.

Observando o movimento do mercado, a maioria dos estúdios de cinema se decidiu pelo VHS (olha a história se repetindo), o que selou o destino do formato da Sony: a empresa "jogou a toalha" quando em 1988 quando começou a fabricar aparelhos VHS. O Beta sobreviveu em um nicho de mercado, o do vídeo profissional, até o final da década de 90, com a chegada do DVD.

E até mesmo o DVD teve um concorrente, embora ele nunca tenha aparecido aqui no Brasil. O DIVX (não confunda com o formato de vídeo digital popular hoje em dia) era um sistema similar, mas projetado para substituir as locadoras de vídeo. Os discos eram "vendidos" a um preço muito baixo, cerca de US$ 4. Após colocar o disco no player pela primeira vez o usuário tinha 48 horas para terminar de ver o filme. Após esse período, o aparelho simplesmente recusaria o disco, a não ser que o usuário pagasse uma "taxa de continuidade" de US$ 3.25.

Ou seja, na prática você não comprava o filme, o alugava, sem a complicaçaõ de ter de devolver o disco ou se preocupar com multas por atraso na devolução. Os players eram ligados à linha telefônica, para manter contato periódico com um sistema central de cobrança. Se você gostasse de um filme, poderia pagar uma taxa única para transformar o disco em um "DIVX Silver", com reprodução ilimitada em seu player. Pague mais um pouco e o transforme em um "DIVX Gold", com reprodução ilimitada em qualquer player.

O formato teve o apoio inicial da maioria dos estúdios de Hollywood, mas não agradou aos consumidores, que não gostaram da idéia de ter de ficar "alugando" constantemente os discos de sua coleção, sem falar na complicação que seria gerenciar uma "videoteca" em uma casa com vários players. Em 16 de Junho de 1999, um ano após seu lançamento, o sistema DIVX foi descontinuado.

Claro que estes não foram os únicos sistemas a cobiçar o mercado de vídeo doméstico, mas sem dúvida foram os mais significativos. Para os interessados, o site Total Rewind tem uma lista completa de sistemas e formatos, tanto fitas quanto discos, de 1927 até o início do século 21. Leitura essencial se você se interessa pela história da tecnologia.

enviada por Rafael Rigues






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